Por que falar sobre a morte? É hora de resgatarmos a boa morte aos pacientes.

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Texto publicado na Revista Iátrico, do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), criada em 2002 para integrar medicina e humanidades, com foco na reflexão e humanização da prática médica.

Autor: Dr. Paulo Roberto Cruz Marquetti, médico formado pela UFPR, especialista em Cardiologia e Terapia Intensiva, professor adjunto de Cardiologia da UFPR e médico intensivista do Hospital de Clínicas da UFPR.

    As Diretrizes do MEC para os cursos de Medicina no Brasil orientam que se dê maior ênfase às doenças mais prevalentes ao se ensinar os futuros médicos; paradoxalmente, pouquíssimas horas são disponibilizadas nas grades curriculares para discutir a situação clínica mais prevalente, que acomete 100% da população: a morte. Por que isso acontece?

Sendo assim, então por que não falar sobre a morte?

Para que possamos entender aonde chegamos quanto a isso, é necessário que analisemos a evolução do morrer na história. Podemos então usar a sua divisão em quatro idades distintas, citada por Kellehear (2007), que resumirei a seguir.

Na Idade da Pedra, a vida e a morte eram imprevisíveis; a morte natural e gradual, não causada por fatores externos (quedas ou animais), era vista como uma viagem imaginária a um mundo melhor.

Na Idade Pastoril, tivemos 12.000 anos de agricultura, assentamentos e infecções; pelo convívio com animais, o sedentarismo trouxe epidemias. Temos aí o surgimento da BOA MORTE, aquela prevista e que permitia preparação prévia e despedidas da família e da comunidade; em contrapartida, a morte súbita, acometendo jovens, longe da Pátria, ou por violência, suicídio ou incompetência de alguém, passou a ser considerada a MORTE RUIM.

Na Idade das Cidades, surge a morte administrada, com sua gestão compartilhada entre o morente, a família e a comunidade, mas o médico, o advogado e o padre. No Século XX, a morte torna-se tabu na sociedade ocidental, com o crescente isolamento do morente. Nesse contexto, surgem dois novos cenários, a saber:

1. Em 1850, Florence Nightingale defendeu que os pacientes mais graves ficassem junto ao posto de enfermagem; em 1923, Walter Dandy criou a primeira UTI no hospital Johns Hopkins, em Baltimore, com três leitos para pós-operatórios de neurocirurgia; e, em 1953, surgiu a primeira UTI para poliomielite na Dinamarca. O avanço das técnicas de ressuscitação e a maior sobrevida nas UTIs, com significativa redução da mortalidade após o surgimento das novas especialidades médicas, da Medicina Intensiva.

2. Também nos anos 60, mais precisamente em 1967, Dame Cicely Saunders criou o St. Christopher’s Hospice, em Londres, a primeira instituição dedicada a oferecer cuidados paliativos aos pacientes com doença avançada e sem perspectivas de cura. Nascia assim a especialidade chamada Medicina Paliativa ou, mais amplamente, Cuidado Paliativo, visto que engloba também Enfermagem, Nutrição, Fisioterapia e Psicologia, entre outras.

Por que esses dois cenários nos são importantes?

Na Idade Cosmopolita, surge a sociedade conectada, a partir dos anos 60-70, quando a informação é virtual e instantaneamente compartilhada.

A morte se torna indigna, vergonhosa e inoportuna, devendo ser oculta; o morente sofre rejeição social, assistência médica inadequada, ressuscitação inoportuna, além das perdas físicas e cognitivas decorrentes da idade.

O aspecto mais duro disso é o esfriamento das relações: morrentes passam a se isolar cercado de estranhos.

E onde estamos nós nesse contexto?

Vemos diariamente nos telejornais famílias reclamando que seus idosos estão há vários dias aguardando vagas em UTI. Passou a existir a visão pelas famílias de que, se o avô ou a avó não for para uma UTI, a família não lhe ofereceu o melhor cuidado possível. As UTIs tornam-se Unidades de Transporte ao Infinito, muitas vezes por pressão (até o âmbito do Ministério Público) da família ou do próprio médico assistente, desvirtuando-se assim a sua missão precípua, que é oferecer suas vagas aos pacientes com possibilidade de recuperação e uma vida gratificante que perdure após chance para o seu grave leito de doença. Se, por sua vez, não houver possibilidade de recuperação, estaremos oferecendo uma morte ruim sob o paradigma da medicina moderna.

Apesar de 70% dos idosos afirmarem que prefeririam morrer em sua casa, 25% o conseguem; os demais morrem em hospitais (45%), asilos (17 a 30%) ou em prontos-socorros (8%).

Sei que este comentário poderá causar estranheza a alguns, mas o meu objetivo é motivar uma reflexão: precisamos parar de segregar os nossos morrentes como se fossem um problema ou os isolar em locais frios destinados pelo Ordem de São Lázaro a afastá-los da família e da sociedade. As UTIs não foram criadas para serem os lazaretos modernos.

É hora de resgatarmos a BOA MORTE aos nossos pacientes, na qual estes sejam cercados do carinho dos familiares, segurando a mão dos filhos e netos e ouvindo suas palavras de conforto, em vez de essas passagens ocorrerem na solidão da UTI, no escuro, envolto apenas por sombrios monitores, apitos e ruídos do soro e dos ventiladores, a metros de distância absoluta da família.

Talvez, nos dias atuais, a possibilidade de utilizar o sedativo supraindicado, solicitando a assistência de especialistas em cuidados paliativos, com formação, competência e humanidade para atender o morrente e sua família nesse momento tão difícil.

Passada essa fase, resta-nos a certeza em termos morais de que fizemos o melhor para o nosso paciente naquele momento, preservando a sua individualidade e dignidade.

Por tudo o que foi aqui exposto, é que devemos SIM falar sobre a morte. Afinal, ela é a única certeza que temos sobre o nosso futuro.

Leituras recomendadas:

Allan Kellehear – UMA HISTÓRIA SOCIAL DO MORRER – Editora UNESP, São Paulo, 2013.

Ana Claudia Quintana Arantes – A MORTE É UM DIA QUE VALE A PENA VIVER – Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 2016.

Philippe Ariès – O HOMEM DIANTE DA MORTE – Livraria Francisco Alves Editora S/A, São Paulo, 1981.

Karina Okajima Fukumitsu – VIDA, MORTE E LUTO – ATUALIDADES BRASILEIRAS – Summus Editorial, São Paulo, 2018.

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